Os rins podem perder função aos poucos, sem dor e sem mudar a urina. Descobrir isso cedo é a melhor forma de proteger o coração, o cérebro — e a própria vida.
Por Prof. Dr. Carlos Machado | Nefrologia e Clínica Geral
Você sabe como estão os seus rins hoje? A maioria das pessoas não sabe — e esse é justamente o problema. É possível trabalhar, se exercitar e viver normalmente, sem sentir dor nenhuma, e ainda assim estar perdendo função dos rins aos poucos. Diferente do que muita gente imagina, a doença renal crônica costuma avançar em silêncio, sem avisar.
Por que os rins não avisam?
Os rins fazem muito mais do que produzir urina. Eles ajudam a eliminar o que o corpo não precisa, controlam a água, o sal e o potássio, participam do controle da pressão arterial, mantêm o equilíbrio do sangue e até ajudam a produzir glóbulos vermelhos e a manter os ossos saudáveis. Por isso, quando eles começam a falhar, o corpo inteiro pode sofrer.
O organismo tem uma enorme capacidade de se adaptar, e os rins também. É possível perder parte importante da função renal e continuar urinando normalmente, sem qualquer desconforto. Produzir urina não é sinônimo de ter os rins saudáveis — e esperar sentir dor para procurar ajuda pode significar descobrir o problema tarde demais.
Um dado importante
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 13% da população mundial vive com algum grau de doença renal crônica. No Brasil, especialistas da Sociedade Brasileira de Nefrologia estimam que o número já passe de 20 milhões de pessoas — a maioria sem diagnóstico.
Quem precisa prestar mais atenção
Algumas situações aumentam bastante o risco de doença renal e merecem atenção redobrada:
- Pressão alta — os rins e a pressão têm uma relação de mão dupla: um pode piorar o outro;
- Diabetes — uma das principais causas de doença renal, mesmo sem sintomas no início;
- Obesidade e alterações de colesterol e glicose (síndrome metabólica);
- Pedra nos rins de repetição — não basta remover a pedra, é preciso investigar a causa;
- Infecção urinária recorrente ou pielonefrite;
- Uso frequente de anti-inflamatórios por conta própria;
- Histórico familiar de doença renal;
- Já ter tido alteração de creatinina, proteína ou sangue na urina.
Os exames que descobrem o problema
Avaliar os rins não é simplesmente pedir um exame de creatinina isolado. É preciso juntar várias peças: a pressão arterial medida com regularidade; a creatinina interpretada junto com a taxa de filtração glomerular (TFG), que leva em conta idade e massa muscular; o exame de urina, que pode mostrar proteína, sangue ou outras alterações; e, em pacientes de risco, a dosagem de albumina na urina — um marcador que pode indicar lesão renal mesmo quando a filtração ainda parece normal.
“Minha creatinina está normal”. Posso ficar tranquilo?
Não necessariamente. Uma creatinina dentro da referência do laboratório não garante rins saudáveis — o resultado precisa ser interpretado considerando a pessoa como um todo. Mais importante do que olhar um exame isolado é acompanhar a evolução ao longo do tempo: como estava há dois anos, como está agora, se existe uma tendência de queda da função. Esse “filme” costuma dizer muito mais do que uma única “foto”.
O diagnóstico não significa hemodiálise
É comum o paciente ouvir sobre um exame alterado e já pensar em diálise. Não é assim. A doença renal tem diferentes causas e diferentes estágios, e o objetivo do diagnóstico precoce é justamente encontrar a causa e tratar o que pode ser tratado — controlando a pressão, o diabetes, o peso, o sal na alimentação, as pedras, as infecções e os medicamentos que podem prejudicar os rins. Quanto antes o risco é identificado, maior a chance de proteger a função renal.
O que realmente protege os seus rins
- medir a pressão arterial com regularidade;
- controlar o diabetes e o peso corporal;
- reduzir o excesso de sal e de alimentos ultraprocessados;
- beber água adequadamente e manter atividade física;
- evitar automedicação, especialmente com anti-inflamatórios;
- investigar a causa de pedras e infecções urinárias de repetição;
- acompanhar a creatinina e a filtração estimada ao longo do tempo, não apenas uma vez.
Não espere o rim doer — ele quase nunca dói. Se você tem pressão alta, diabetes, obesidade, pedra nos rins ou infecção urinária recorrente, converse com seu médico sobre quais exames fazem sentido para o seu caso. Descobrir o risco enquanto ele ainda está “falando baixo” pode mudar completamente a sua história.
Prof. Dr. Carlos Machado — Especialista em Nefrologia e Clínica Geral.
Artigo de divulgação científica.
ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA – UNIFESP
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
PROFESSOR de Medicina em 3 Universidades
Pós-Doutorado – CORNELL UNIVERSITY
MEMORIAL SLOAN-KETTERING CANCER CENTER
Autor do livro: ‘Você é o que você come…’
@DrCarlosMachado (Instagram, Tiktok, Youtube)
Consultório WhatsApp +55 11 94565-1396
Perfil profissional: beacons.ai/drcm
Fontes: Organização Mundial da Saúde; Sociedade Brasileira de Nefrologia; Boletim Epidemiológico da Doença Renal Crônica no Brasil — Ministério da Saúde, 2024.