Existe uma frase que ouço quase toda semana no consultório, e ela quase sempre vem em tom de
desculpa: “Doutora, eu sempre dei conta de tudo. Não sei o que aconteceu comigo.” Quem diz isso
costuma ser uma mulher entre 45 e 58 anos, no ponto mais alto da própria carreira, com uma vida inteira
de competência comprovada atrás de si. Ela não está pedindo um diagnóstico. Está pedindo uma
explicação para algo que interpreta como falha de caráter.
Não é. E os números ajudam a mostrar por quê. Em 2025, o Brasil concedeu mais de 546 mil
afastamentos do trabalho por transtornos mentais — recorde da série histórica, com crescimento próximo
de 16% em relação ao ano anterior. Um levantamento com milhares de profissionais de diferentes níveis
hierárquicos encontrou algo ainda mais específico: entre mulheres em cargos de alta gestão, cerca de dois
terços já apresentavam quadro completo de esgotamento, e a faixa entre 46 e 55 anos foi a mais atingida
de todas.
O que essa estatística não diz é que, exatamente nessa faixa etária, o corpo feminino está atravessando
outra transformação profunda. A perimenopausa começa, em média, oito a dez anos antes da última
menstruação — ou seja, muitas vezes já aos 40. E o estrogênio, nessa fase, não desce em linha reta: ele
oscila, sobe e cai de forma imprevisível de uma semana para a outra.
Isso importa porque o cérebro tem receptores hormonais espalhados justamente nas áreas que regulam
sono, humor, memória de trabalho e resposta ao estresse. Quando esses níveis passam a variar, a reserva
disponível para lidar com a mesma carga de sempre diminui. A rotina não mudou. A capacidade de
absorvê-la, sim. É por isso que tantas mulheres descrevem a sensação de “estar operando com metade do
tanque” sem que nada objetivo tenha se alterado na vida delas.
O problema clínico é que os dois quadros se parecem muito. Exaustão que não passa com o fim de
semana, irritabilidade desproporcional, choro fácil, dificuldade de concentração, perda de prazer no que
antes engajava, sono que não repara — tudo isso aparece tanto no esgotamento profissional quanto na
transição hormonal.
Alguns sinais ajudam a orientar a investigação: ondas de calor, suores noturnos, irregularidade do ciclo,
ressecamento vaginal e despertares na madrugada apontam mais para o componente hormonal.
Distanciamento afetivo do trabalho, sensação de ineficácia e cinismo em relação à própria função
apontam mais para o esgotamento ocupacional. Mas seria um erro tratar isso como uma escolha entre
duas portas. Na prática, as duas condições coexistem com frequência — e uma amplifica a outra.
Daí vem o erro mais custoso que observo: tratar apenas um lado. Prescrever antidepressivo sem nunca
perguntar sobre o ciclo menstrual. Ou repor hormônio sem olhar para uma jornada de trabalho
insustentável e um sofrimento psíquico real. Medicação psiquiátrica tem indicação clara e salva vidas
quando bem empregada — o que não pode é ser resposta automática a uma queixa que ninguém
investigou até o fim.
Há ainda um agravante silencioso: mulheres de alto desempenho demoram muito para procurar ajuda,
porque continuam entregando. Seguem cumprindo prazos, sustentando equipes e resolvendo o que
precisa ser resolvido — só que agora à custa de uma reserva que já não existe. A funcionalidade
preservada engana o entorno e engana a própria paciente. O intervalo entre o início real do quadro e a
primeira consulta costuma se medir em anos, não em meses, e quanto mais longo esse intervalo, mais
lenta tende a ser a recuperação.
Uma avaliação cuidadosa começa pela história: como está o sono, como está o ciclo, quando os sintomas
surgiram, o que já foi tentado, qual o peso real da rotina. E se apoia em exames que ajudam a enxergar o
que está somando — função tireoidiana, vitamina D, B12, ferritina, glicemia, perfil metabólico. Vale
dizer com todas as letras: não existe exame que diagnostique burnout. O diagnóstico é clínico. Os exames
servem para identificar e afastar o que pode estar contribuindo, e é justamente por isso que pular essa
etapa custa tanto tempo à paciente.
Cansaço que melhora depois de uma boa noite de sono é cansaço. O que não melhora depois de dez dias
de férias é outra coisa — e merece ser investigado com a mesma seriedade com que se investiga uma dor
no peito. Não é preguiça, não é frescura e não é “a idade chegando”. É um corpo pedindo que alguém
olhe para ele inteiro.
Dra. Rochelle Marquetto é médica psiquiatra e atua com abordagem integrativa no cuidado de quadros de
esgotamento.
Dados para publicação — Autora: Dra. Rochelle Marquetto, médica psiquiatra · CRM: [preencher] · Contato para imprensa:
[preencher] · Extensão: 4.500 caracteres com espaços (757 palavras) · Texto original e inédito, cedido para publicação editorial.