A geração que segura tudo: o custo invisível de ser filha, mãe, gestora e paciente ao mesmo tempo

Elas coordenam a consulta do pai, a escola do filho e a entrega do trimestre. A única consulta que não
entra na agenda é a delas.

Uma paciente me mostrou a agenda do celular na primeira consulta. Naquela semana havia o retorno do
cardiologista do pai, a reunião de pais na escola do filho mais novo, a entrega de um relatório para o
conselho da empresa e o aniversário da sogra. Ela abriu o calendário para me explicar por que só tinha
conseguido marcar a própria consulta às sete da noite de uma sexta-feira. E depois pediu desculpas por
estar cansada.
Esse retrato tem nome e tem geração. São mulheres entre 45 e 60 anos que chegaram ao auge da carreira
exatamente no período em que os filhos ainda dependem delas e os pais já dependem também.
Assumiram simultaneamente o papel de provedora, cuidadora, gestora e organizadora emocional de duas
famílias. E o fizeram, na maioria das vezes, sem que ninguém jamais tenha chamado isso de trabalho.
Os dados acompanham a percepção clínica. Em levantamentos do sistema público, quase três em cada
quatro atendimentos relacionados a esgotamento profissional foram de pacientes do sexo feminino. Entre
mulheres em cargos de alta gestão, pesquisa com milhares de profissionais encontrou cerca de dois terços
em quadro completo de burnout — proporção superior à dos homens no mesmo nível hierárquico. E o
país fechou 2025 com mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número já
registrado.
O que explica essa diferença não é fragilidade. É acúmulo. A sobrecarga feminina raramente se mede em
horas de expediente; ela se mede em uma função de coordenação permanente que não aparece em
nenhum organograma. Saber que o remédio do pai acaba na quinta. Lembrar que o uniforme precisa ser
lavado. Perceber, antes de todo mundo, que alguém da equipe está prestes a pedir demissão. É um plantão
mental que não termina quando o expediente acaba — e que, por não ser nomeado, também nunca é
dividido.
Por isso desconfio profundamente da forma como o tema costuma ser tratado. Diz-se a essa mulher que
ela precisa de melhor gestão de tempo, de mais autocuidado, de aprender a meditar. Nada disso é ruim
em si. Mas todas essas recomendações têm algo em comum: devolvem para ela, individualmente, a
responsabilidade por um problema que é estrutural. Autocuidado não redistribui carga. Aplicativo de
meditação não divide o cuidado de um pai com Alzheimer. Quando o discurso do bem-estar vira mais
uma tarefa na lista, ele deixa de ser cuidado e vira cobrança.

Há também um componente que aparece em quase toda primeira consulta: a culpa. Culpa por não estar
presente o bastante para os filhos, por não dar conta do pai adoecido como gostaria, por render menos no
trabalho do que rendia aos 35, por precisar de ajuda. Essa culpa funciona como um imposto adicional
sobre um sistema já sobrecarregado, e é ela, mais do que a falta de tempo, que costuma adiar a busca por
avaliação. Muitas dessas mulheres esperaram três, cinco, oito anos antes de marcar a primeira consulta —
sempre com a mesma justificativa de que havia gente precisando mais.
Enquanto isso, o corpo cobra sozinho. Boa parte dessas pacientes não chega ao psiquiatra por sofrimento
emocional — chega por dor. Enxaqueca que virou rotina, tensão no pescoço e nos ombros, sono que não
repara, alterações intestinais, pressão que começou a subir, imunidade em queda. Passaram por três
especialistas antes que alguém perguntasse como andava a vida delas. O sintoma físico é, muitas vezes, a
primeira linguagem disponível para um corpo que já tentou avisar de outras formas.
O que muda o quadro raramente é uma única intervenção. Envolve nomear e renegociar a carga real, e
não apenas administrá-la melhor. Envolve avaliar o que está acontecendo clinicamente, inclusive no
plano hormonal e metabólico, porque essa faixa etária concentra transformações que amplificam
qualquer sobrecarga. Envolve tratar o sono como prioridade médica, não como luxo. E envolve, sim,
responsabilidade organizacional: com a atualização da NR-1, riscos psicossociais passam a exigir gestão
ativa das empresas, o que desloca parte do problema do colo da funcionária para a mesa da liderança.
Não existe medalha por resistir mais tempo. A mulher que sustenta todo mundo à custa da própria saúde
não está sendo forte — está sendo gasta. Pedir ajuda, nesse contexto, não é sinal de fraqueza. É o
reconhecimento adulto de que a própria capacidade é finita, valiosa e digna de cuidado.

Dra. Rochelle Marquetto é médica psiquiatra e atua com abordagem integrativa no cuidado de quadros de
esgotamento.
Dados para publicação — Autora: Dra. Rochelle Marquetto, médica psiquiatra · CRM: [preencher] · Contato para imprensa:
[preencher] · Extensão: 4.432 caracteres com espaços (735 palavras) · Texto original e inédito, cedido para publicação editorial.