Sua memória não piorou — seu cérebro está em transição

Sua memória não piorou — seu cérebro está em transição

Você entra num cômodo e esquece o que foi fazer ali. Procura uma palavra simples e ela não vem. Lê o mesmo parágrafo três vezes e não se lembra de nada. Se isso começou entre os 45 e os 50 anos, a primeira pergunta que passa pela cabeça costuma ser a mais assustadora: “será que é o início de algo grave?”.

Um artigo publicado na JAMA em 2020 ajuda a responder com mais precisão do que o medo permite. As autoras revisaram o que se sabe sobre queixas cognitivas na perimenopausa e descrevem algo importante: essa dificuldade de memória é real e mensurável, não imaginação, mas costuma ser um efeito temporário da transição hormonal — e tende a se estabilizar depois da menopausa, não a progredir.

O mecanismo por trás disso já está bem descrito na literatura: o estrogênio participa ativamente do funcionamento do hipocampo, a região do cérebro responsável por registrar novas memórias, e influencia a velocidade de processamento e a atenção. Durante a perimenopausa, os níveis hormonais não caem de forma linear — eles oscilam de maneira irregular, sobem e descem antes de se estabilizarem no patamar pós-menopausa. É justamente essa instabilidade, mais do que a queda em si, que parece explicar os lapsos que você sente no dia a dia.

Vale entender quatro pontos antes de tirar conclusões precipitadas:

Primeiro: memória de curto prazo falhando ocasionalmente, num contexto de outros sintomas da transição, não é o mesmo que um quadro demencial. São processos clínicos diferentes, com mecanismos e evolução diferentes — um é hormonal e reversível, o outro é neurodegenerativo e progressivo.

Segundo: sono ruim, ondas de calor e oscilações de humor — companheiros frequentes dessa fase — pioram a percepção de esquecimento por conta própria, mesmo sem alteração real na memória. Tratar esses sintomas, quando presentes, costuma melhorar também a sensação de clareza mental

Terceiro: a própria ansiedade em torno do esquecimento pode alimentar o problema. Quanto mais você monitora cada lapso com medo, mais ele parece se destacar — um ciclo que vale nomear para poder relativizar.

Quarto: isso não significa ignorar o sintoma. Perda de memória que evolui, que compromete tarefas do dia a dia ou vem acompanhada de outros sinais neurológicos merece avaliação médica cuidadosa — a ciência é clara ao dizer “geralmente temporário”, não “sempre inofensivo”.

Se você reconheceu essa cena no início do texto, não está perdendo a cabeça, e não está sozinha: é uma das queixas mais comuns e menos faladas da perimenopausa, ainda cercada de silêncio e vergonha. Vale anotar quando os lapsos acontecem e conversar sobre isso na sua próxima consulta — não porque algo esteja necessariamente errado, mas porque toda mudança do seu corpo merece ser levada a sério, com nome e explicação, não apenas conformismo.

Dra. Mariana Halla — médica especialista em saúde feminina, menopausa e longevidade.